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Reflexões de um blogueiro gay

terceira_idadeHá alguns meses eu tenho dedicado parte do meu tempo num projeto diferente deste do blog, o que me faz espaçar as publicações porque o tempo é escasso.

Em quase setecentos artigos publicados já abordei de tudo um pouco e observo que ao longo de quase seis anos, os leitores ainda buscam temas como: saunas gays, pegação em cinemas, parques e banheiros públicos. Talvez a busca direcione ao blog pessoas que pensam que esses temas são classificados pessoais, o que não é fato, mas por outro lado, aqueles que chegam até aqui por intermédio desses artigos acabam descobrindo outros temas e isso é o que realmente importa.

Percebo que nesses seis anos eu também mudei e os temas sempre refletem aquilo que estou vivendo no momento e nos últimos meses eu tenho pensado muito sobre o meu envelhecimento e como transmitir isso aos leitores de uma forma direta.

Observo atentamente os comentários postados e me chama a atenção a solidão dos gays. A busca por um parceiro que possa compartilhar momentos a dois. Muitas vezes esses gays nem querem um parceiro para sexo, mas um ser humano que entenda seus anseios e desejos, que tenha afinidades, que possa conversar sobre a homossexualidade de uma forma direta e sem rodeios.

É aquele tipo de amigo que faz companhia nos finais de semana, ou para assistir um filme no cinema, ir ao teatro, viajar e até assistir uma partida de futebol num estádio qualquer. Eu escrevi sobre isso em 2010. leia aqui.

A solidão bate à nossa porta a qualquer momento, mas torna-se constante depois dos quarenta anos. Eu conheço amigos que tentam driblar a solidão, mas no fim do dia, você está invariavelmente, sozinho.

Para os que trabalham, chegar em casa após o expediente é um alívio e após o banho faz suas refeições sentado na pequena mesa da cozinha ou sala de jantar. A maioria come mesmo de prato na mão e em frente à televisão.

E assim, a noite chega, as horas avançam e o sono não vem. É distrair-se com alguma leitura ou ocupar-se com algum entretenimento popular exibido na tevê aberta, porque televisão por assinatura não está ao alcance de todos.

Para a geração saúde, nada melhor do que correr para a academia após o trabalho e para os mais jovens a noite ainda vai ser longa porque a faculdade ainda não foi concluída.

Outro dia eu fui cobrado por meu companheiro de não sair muito à noite durante a semana e me senti anestesiado e sem respostas.

Eu sempre pensei que solidão fosse “estado de espírito”, mas recentemente descobri que ela também é física e isso reflete no emocional. Quando vivemos uma rotina ela acaba sendo tediosa e ai é cada um com seus problemas, mas ainda assim, nós temos muitas coisas em comum.

Neste mundo da tecnologia e da informação os gays maduros e até os idosos estão conectados ao mundo virtual, seja para ler as notícias, usar os serviços bancários e eu não sou diferente, mas eu não acesso a Internet à noite e nem na chácara nos finais de semana, porque é preciso viver um pouco a realidade fora do mundo virtual.

Você já parou para pensar como anda a sua vida? Bem, a minha está assim numa rotina que me traz um vazio, talvez uma fase passageira, porque não me falta motivação, mas a idade avança e é preciso muito cuidado para não se perder no redemoinho do cotidiano.

Um amigo diz que 55 anos é uma idade perigosa, porque é quando nos sentimos mais sozinhos mesmo estando acompanhados de parentes ou amigos, será?

Caro leitor, a minha vida não é diferente da sua vida, na essência somos todos iguais, com os mesmos sonhos, anseios e desejos. Entre altos e baixos vamos levando a vida. Ah, não tenho do que reclamar!

Termino essas reflexões com algumas frases que encontrei na Internet.

  • Ser gay é muito bom, ou você duvida?
  • Ter um companheiro muitas vezes significa não ter liberdade
  • A aposentadoria te condiciona ao gueto
  • O gay da geração saúde não quer corpo saudável, quer o bofe malhado.
  • Ser ativo ou passivo? prefira gouinage
  • Facebook ou Instagram? O melhor é cara a cara

Copa do Mundo: Memórias de um gay maduro

copa_2014_gayA partir de amanhã estarei de férias e não foi por acaso que escolhi este período. Eu quero ficar longe das manifestações, aglomeração, agitação, transito caótico, barulho e todas as inconveniências da Copa do Mundo na minha cidade, no meu país.

Eu até gosto de futebol, mas no conforto da minha casa. Outro dia um amigo me perguntou se eu tinha lembrança da minha primeira copa. Bem, eu nunca fui a uma Copa do Mundo e nem pretendo ir, mas aquela conversa me fez viajar no tempo e buscar no baú de memórias alguns fatos importantes que construíram a homossexualidade no curso da minha vida.

Eu Tenho vagas lembranças da Copa em 1970 no México e de lá para cá foram outras dez. Caramba! O tempo é realmente implacável!

No decorrer dessas copas, a minha homossexualidade  foi construída com muita determinação e luta. Além do envelhecimento natural, eu amadureci, a sociedade mudou e hoje me sinto tranquilo.

Na Copa de 1970, eu nem tinha ideia de quem eu era. As poucas memórias me remetem à rua onde morava. Na minha adolescência, era quase proibido ser homossexual. Então, a pessoa sabia que a outra era homossexual e já via com outros olhos, já achava que era um marginal. Eu acho que os vizinhos tinham mais medo de um homossexual do que de um bandido. Pra eles homossexualidade era uma doença que podia contagiar alguém da sua família.

Em 1978, na Copa da Argentina, eu assisti a final entre os anfitriões e a Holanda ao lado de um homem que me ensinou muita coisa sobre “ser gay”, ainda numa época de ditadura militar. O que marcou a minha vida naquele período foi a percepção de que, eu precisava não só de aventuras homossexuais, eu precisava enveredar por um amor homossexual.

Na Copa de 1986 no México eu ainda me sentia constrangido com a própria homossexualidade, o que gerou enfrentamento das muitas crises existenciais que apareceram na gestão da vida individual.

Quando o Brasil foi tetracampeão na Copa de 1994, eu já tinha travado as lutas contra mim mesmo, a fim de me situar num espaço social preconceituoso, que gerava sentimentos de vergonha, sensação de permissividade, sujeira e transgressão.

Em 2002, enquanto o Brasil buscava mais um título, eu partia para os Estados Unidos e Canadá na busca do entendimento das questões da homossexualidade fora do país. Naquela época eu já tinha a percepção de se poder viver um estilo de vida gay satisfatório adaptado às normas sociais.

Na última Copa em 2010, este blog já tinha mais de um ano de vida e eu escrevi sobre os gays maduros como torcedores de futebol – Leia aqui. Também, escrevi um artigo sobre Amenidades, mundo gay e futebol.

De lá para cá não toquei mais no assunto do esporte bretão (origem do futebol na Bretanha ou Inglaterra) e priorizei os temas culturais e sociais, além das experiências de outros gays. Como diz outro amigo: “na velhice tem que cuidar da saúde e ter algum dinheiro para ter uma vida digna”.

Enfim, eu chego a mais uma Copa do Mundo e desta vez no Brasil. Não vou nem entrar nas questões sociais, políticas e financeiras deste evento, mas eu posso dizer que a maturidade associada ao momento social me permite ser quem eu sou.

Eu sei que no trabalho falam de mim, dizem muitas coisas às escondidas, mas não estou nem ai. O meu lema é: Seja distinto, afaste-se de pessoas maldosas, e viva a vida sem neuras.

Durante a Copa, eu quero a vida tranquila das pequenas cidades do interior de Minas Gerais, depois uma passagem rápida por outras cidades do Mato Grosso e por fim, uma viagem de aventuras nas Serras Catarinenses. O meu companheiro detesta o frio, mas vai me acompanhar nessa aventura e não contra a sua vontade.

Se você gosta de futebol torça por sua seleção, mas priorize a sua vida e trate das questões da homossexualidade sem culpas ou medos, pois lá na frente, você ainda vai rir de tudo isso.

Aos leitores dos GRISALHOS uma ótima Copa do Mundo. Em Julho estarei de volta – Abraço, Regis

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