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Copa do Mundo: Memórias de um gay maduro

copa_2014_gayA partir de amanhã estarei de férias e não foi por acaso que escolhi este período. Eu quero ficar longe das manifestações, aglomeração, agitação, transito caótico, barulho e todas as inconveniências da Copa do Mundo na minha cidade, no meu país.

Eu até gosto de futebol, mas no conforto da minha casa. Outro dia um amigo me perguntou se eu tinha lembrança da minha primeira copa. Bem, eu nunca fui a uma Copa do Mundo e nem pretendo ir, mas aquela conversa me fez viajar no tempo e buscar no baú de memórias alguns fatos importantes que construíram a homossexualidade no curso da minha vida.

Eu Tenho vagas lembranças da Copa em 1970 no México e de lá para cá foram outras dez. Caramba! O tempo é realmente implacável!

No decorrer dessas copas, a minha homossexualidade  foi construída com muita determinação e luta. Além do envelhecimento natural, eu amadureci, a sociedade mudou e hoje me sinto tranquilo.

Na Copa de 1970, eu nem tinha ideia de quem eu era. As poucas memórias me remetem à rua onde morava. Na minha adolescência, era quase proibido ser homossexual. Então, a pessoa sabia que a outra era homossexual e já via com outros olhos, já achava que era um marginal. Eu acho que os vizinhos tinham mais medo de um homossexual do que de um bandido. Pra eles homossexualidade era uma doença que podia contagiar alguém da sua família.

Em 1978, na Copa da Argentina, eu assisti a final entre os anfitriões e a Holanda ao lado de um homem que me ensinou muita coisa sobre “ser gay”, ainda numa época de ditadura militar. O que marcou a minha vida naquele período foi a percepção de que, eu precisava não só de aventuras homossexuais, eu precisava enveredar por um amor homossexual.

Na Copa de 1986 no México eu ainda me sentia constrangido com a própria homossexualidade, o que gerou enfrentamento das muitas crises existenciais que apareceram na gestão da vida individual.

Quando o Brasil foi tetracampeão na Copa de 1994, eu já tinha travado as lutas contra mim mesmo, a fim de me situar num espaço social preconceituoso, que gerava sentimentos de vergonha, sensação de permissividade, sujeira e transgressão.

Em 2002, enquanto o Brasil buscava mais um título, eu partia para os Estados Unidos e Canadá na busca do entendimento das questões da homossexualidade fora do país. Naquela época eu já tinha a percepção de se poder viver um estilo de vida gay satisfatório adaptado às normas sociais.

Na última Copa em 2010, este blog já tinha mais de um ano de vida e eu escrevi sobre os gays maduros como torcedores de futebol – Leia aqui. Também, escrevi um artigo sobre Amenidades, mundo gay e futebol.

De lá para cá não toquei mais no assunto do esporte bretão (origem do futebol na Bretanha ou Inglaterra) e priorizei os temas culturais e sociais, além das experiências de outros gays. Como diz outro amigo: “na velhice tem que cuidar da saúde e ter algum dinheiro para ter uma vida digna”.

Enfim, eu chego a mais uma Copa do Mundo e desta vez no Brasil. Não vou nem entrar nas questões sociais, políticas e financeiras deste evento, mas eu posso dizer que a maturidade associada ao momento social me permite ser quem eu sou.

Eu sei que no trabalho falam de mim, dizem muitas coisas às escondidas, mas não estou nem ai. O meu lema é: Seja distinto, afaste-se de pessoas maldosas, e viva a vida sem neuras.

Durante a Copa, eu quero a vida tranquila das pequenas cidades do interior de Minas Gerais, depois uma passagem rápida por outras cidades do Mato Grosso e por fim, uma viagem de aventuras nas Serras Catarinenses. O meu companheiro detesta o frio, mas vai me acompanhar nessa aventura e não contra a sua vontade.

Se você gosta de futebol torça por sua seleção, mas priorize a sua vida e trate das questões da homossexualidade sem culpas ou medos, pois lá na frente, você ainda vai rir de tudo isso.

Aos leitores dos GRISALHOS uma ótima Copa do Mundo. Em Julho estarei de volta – Abraço, Regis

Um olhar crítico sobre publicações homoeróticas

olhar_critico_g_magazineO envelhecimento parece não interessar a ninguém, inclusive aos gays.

Quando eu era jovem eu era cobiçado e desejado e olha que não faz tanto tempo assim. Hoje aos 55 anos percebo claramente como o homossexual vai desaparecendo à medida que envelhece.

A minha geração participou dos primeiros movimentos sociais em prol dos diretos e da identidade dos homossexuais. No decorrer desses anos conquistamos alguns direitos e liberdade, mas o próprio movimento gay não liberou esse preconceito de idade.

Eu me recordo de antigas publicações, como o Snob, Gente Gay, Pasquim e Lampião da Esquina que traziam notícias sobre o universo homossexual, violência policial e discutia-se a sexualidade. Com o fim do jornal em 1981 sobraram as revistas homoeróticas ou pornográficas, em sua maioria estrangeiras centradas na publicação de fotos de nu e cenas de sexo. Lembro-me também da revista SuiGeneris quesurgiu como produto da segmentação do mercado editorial que propunha discutir, com homossexuais e heterossexuais, questões relativas à homossexualidade.

A revista investiu numa possibilidade de afirmação do “ser gay” através de temas como cultura, comportamento, moda e entrevistas com grandes nomes do meio artístico/político nacional. Esta publicação buscava refletir a atitude do “assumir-se”, mas também destacava a validade do desejo homoerótico e buscava fortalecer a autoestima dos seus leitores. Circulou de janeiro de 1995 a março de 2000, quando, por motivos financeiros, encerrou sua publicação.

olhar_critico_juniorHá algum tempo eu acompanho as publicações da revista G Magazine lançada em 1997 e da Junior e o que pude constatar é que não existe espaço para os gays mais velhos; os ursos até ganham algum destaque porque se mostram másculos e viris e os poucos maduros ou idosos são apresentados de uma forma deturpada.

No caso da representação dos homossexuais idosos feitas nas revistas homoeróticas como a G Magazine e Junior, por exemplo, é válida a daquele que se cuida, que está preocupado em ficar com aparência de homem jovem e bonito; que procura sempre fazer com que a velhice não esteja ali, a mostra de quem quer ver.

Em boa parte das matérias, esses homens idosos e homossexuais aparecem como pessoas que só tinham desejos sexuais quando eram jovens. Na velhice, eles são representados como pessoas que não possuem desejos sexuais. Ser homossexual idoso, nas matérias dessas revistas, está ligado à imagem daquele que disfarça a velhice e que são carentes de relações afetivo-sexuais.

Estamos no meio da cultura da juventude: importa a masculinidade, mas também importa a idade. É como se os gays vivessem um eterno complexo de Peter Pan, onde o envelhecimento é o principal vilão que deve ser combatido a todo custo. Do contrário, deixará de ser um corpo desejado, tornando-se um corpo abjeto e que deverá ser escondido.

No tocante a homossexualidade, o corpo velho parece evidenciar uma espécie de pânico produzido pela imagem de deterioração legado pelo mito da velhice, cuja fragilidade e horror são amplamente produzidos no interior das “comunidades” gays, que produzem novos efeitos em torno de certa homonormatividade baseada no ideal de juventude e individualismo.

Mais do que nunca, a homossexualidade está sempre ligada ao “ser jovem”, consequentemente, a ideia do ser jovem não deve aparecer apenas no rosto, mas também no corpo que deve sempre ser “sexy”, “gostoso”, “malhado”, “sarado”, “atlético” e “saudável”.

olhar_critico_sui_generisOscilando entre a imagem da “tia velha”, exageradamente efeminado, desprovido de atrativos e meio gagá, e a do “tiozinho tarado”, capaz de atacar inesperadamente qualquer jovem “inocente”, os homossexuais idosos representariam uma das formas mais proeminentes de alteridade abjeta e excluída dentro da atual experiência “positiva” da homossexualidade masculina.

Eu digo isso sem nenhum receio de ser criticado, pois se observa, por exemplo, na imprensa voltada para grupos minoritários, em especial ao público homossexual masculino, a existência de publicações que não atribui automaticamente um lugar de fala para o homossexual na sociedade. Indo mais além, através das revistas voltadas para os gays é possível analisar qual o espaço e representações que elas fazem do desdobramento desse grupo, pois até então, é como se os homossexuais idosos não existissem, há um silencio no tocante a existência desse grupo tido, normalmente por essas publicações homoeróticas e pelos próprios homossexuais, como pessoas duplamente abjetas, isto é, pela questão da idade e do corpo, que vai fugir do padrão de desejo.

Lidar com as limitações biológicas da vida e aceitar o corpo em degeneração continuam sendo um dos principais desafios dos gays no mundo moderno, basta observarmos a obsessão que as pessoas, têm com as formas corporais e a apresentação juvenil que atravessa todo o complexo da moda, das academias de ginástica, dos anabolizantes, dos cosméticos e da cirurgia plástica.

Se a preferência pela juventude e a antipatia pela velhice é comum na história das concepções sobre envelhecimento, e também constituem sentimentos disseminados na chamada cultura de consumo, eles parecem atingir o seu ápice quando se considera a chamada “cultura gay masculina” dos centros urbanos e das metrópoles.

Nesse cenário, aparentemente marcado pelo hedonismo e pela obsessão com atributos físicos capazes de suscitar atração e desejo, em que tudo parece girar em torno de um mercado sexual hierarquizado por critérios de juventude e beleza, não há lugar para pessoas de mais idade, que carregam os estereótipos derivados da depreciação de sua atratividade como parceiros sexuais.

Aos mais velhos, só resta pagar para desfrutar de companhia fugaz e arriscada. E essa concepção ou “verdade” que geralmente está inserida no contexto ao ser gay idoso, pois a verdade pode ser vista como social e histórica.

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