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Gays idosos heterossexuais?

gay_heterossexualApós ler um artigo sobre envelhecimento da população brasileira, eu fui a campo para conversar com algumas pessoas do meu meio social.

Nas minhas conversas procurei obter informações de como os gays idosos observam o seu próprio comportamento perante a sociedade, pois a maioria deles vive sozinho e longe dos familiares.

João é um idoso tranquilo, aposentado e leva uma vida comum. Ele mora sozinho, não frequenta o meio gay porque diz não haver espaço para pessoas idosas. Então ele se ocupa fazendo coisas que lhe dão prazer, exceto sexo. Ele sublimou o sexo quando percebeu que na velhice ficou mais difícil encontrar parceiros, pois acredita que é pelo sexo que surge a oportunidade de um relacionamento mais estável. João também cansou das idas e vindas das relações homossexuais. Tudo é complexo, porque os gays têm muitos problemas emocionais, além da não aceitação da própria homossexualidade. O João se vê como um idoso heterossexual, fazendo coisas que idosos viúvos ou sozinhos fazem.

Com o Leonel obtive respostas interessantes, pois para ele de cada dez homossexuais  acima de sessenta anos, mais de 80% vive como um idoso heterossexual. Isso nunca me passou pela cabeça que ao envelhecer e se você não dá pinta de que é gay, vai viver como um idoso heterossexual, sozinho e sem direto ao afeto.

Outra coisa interessante que ele me falou é o que ele chama “faz de contas”. Leonel passou a vida fazendo de conta que não era gay, pois não se aceitava e criou um mundo de mentiras, ou melhor, um mundo do Faz de Conta. Na velhice ele continua fazendo de conta que é um idoso como qualquer outro e ciente dos preconceitos da sociedade, e vai morrer fazendo de conta que não é diferente de ninguém – Acho que é assim que a maioria dos gays idosos se percebe, se é que percebe.

Em ambos os casos, eu observei que a qualidade de vida é boa e eles ainda não necessitam de cuidados médicos, mas como disse o Leonel: O negócio é se preparar para quando as doenças chegarem. Ai sim a vaca vai para o brejo e não adianta fazer de conta que as doenças não existem, porque você pode enganar o mundo, mas não engana o envelhecimento.

No artigo que eu li, me chamou a atenção, a discriminação e a exploração dos idosos heterossexuais. Eles são discriminados porque ao se aposentarem perdem seu espaço de inserção produtiva e são forçados ao isolamento social. Além disso, muitos são explorados por familiares, que se valem da renda regular da aposentadoria para o sustento de filhos e netos, sendo ainda assediados pelo setor financeiro com ofertas abusivas de empréstimos consignados.

Eu acho que a discriminação e exploração também se aplicam aos gays, porque nos aposentamos e somos explorados por familiares, falsos amigos e assediados pelos bancos, além do preconceito da homossexualidade.

A velhice é igual para homossexuais e heterossexuais e ainda fazemos de conta que não somos diferentes e vivemos como heteros porque optamos por viver no armário e na velhice não conseguimos mudar nosso comportamento.

Bem, isso não é nossa culpa, porque vivemos a juventude e a maturidade numa época de muita repressão social e familiar e a nós não sobrava muita coisa a não ser “ser enrustido”. Mesmo nos dias atuais e com tanta liberdade, mudar isso na velhice é muito difícil.

A integração social dos gays idosos

lgbt_SeniorsNa segunda parte do assunto sobre gay idoso vivendo sozinho, eu finalizo este tema falando sobre a integração social.

Os grandes centros urbanos concentram a maior parte da população LGBT do Brasil e nesses cenários são realizados estudos e pesquisas sobre a homossexualidade na terceira idade.

Mesmo com carência de estudos acadêmicos, os poucos estudos realizados nos últimos dez anos apontam que na maturidade e na velhice o homossexual masculino apresenta melhor qualidade de vida social do que os sujeitos heterossexuais na mesma faixa de idade.

Isso se explica por causa das mudanças sociais ocorridas nos últimos trinta anos. Parece besteira, mas até os movimentos das Paradas Gays espalhadas pelo Brasil contribuem para uma boa aceitação da orientação homossexual entre a população de idosos.

Semelhantemente, observam-se expressões de não identificação com movimentos políticos e sociais de afirmação de direitos dos gays e das lésbicas no Brasil. Os gays idosos expressam críticas à parada gay, fato que talvez explique por que esses movimentos atingiram maior expressividade social somente há pouco tempo, influenciando fortemente os gays mais jovens.

gays_idosos_couples

O gay idoso da atualidade era jovem nos anos 60 e 70, quando surgiram os primeiros movimentos civis de luta contra a discriminação e de defesa dos direitos das pessoas LGBT, portanto, está em sintonia com tudo o que aconteceu no mundo e quer fazer parte das mudanças. Dessa forma, ainda que tenha vivenciado experiências de discriminação em sua vida, sinaliza uma boa capacidade de enfrentamento de tais situações na maturidade e na velhice.

Outro paradoxo diz respeito ao isolamento social e a solidão. Na velhice a grande maioria dos gays é solteira e não tem filhos, o que pressupõe solidão, mas não é isso o que acontece porque justamente por serem sozinhos estão dando ênfase nos contatos sociais, seja em grupos específicos ou num cenário mais abrangente, tais como: relacionamentos estáveis, família, trabalho, grupos da terceira idade, vizinhos e amigos.

Os gays idosos que apresentam transtornos mentais estão buscando médicos, psicólogos e psicoterapias. Os transtornos são decorrentes de sofrimentos psicológicos, pois os gays que apresentam dificuldades em revelar-se socialmente observam outros gays saindo do armário e percebem que de algum modo, isso gera bem-estar psicossocial.

Em janeiro eu enviei e-mail para um grupo de idosos perguntando se eles tinham orgulho da orientação homossexual. Eis algumas respostas:

“Tenho orgulho, porque foi difícil me aceitar, teve um caminho longo até aqui, então como poderia não ter orgulho? Eu consegui as coisas mesmo sendo gay. É até um orgulho bobo, mas eu tenho orgulho.”

“Não tenho orgulho não. É como eu sou.”

“Sim, tenho orgulho, mas não vou numa passeata ou parada gay. Aquilo é como uma festa, não combina comigo.”

“Eu tenho orgulho porque não foi fácil, quando me vi sozinho tive que enfrentar a coisa de frente.”

“Mesmo vivendo no armário, eu tenho orgulho de ser gay e não preciso dizer isso a ninguém.”

gays_idosos_coupleOs gays na terceira idade revelam boa frequência de convívio familiar e de convívio com pessoas da mesma faixa etária, para amizades e relacionamentos, pois aprenderam às duras penas como lidar com essa situação. De fato, as percepções de que os homossexuais mais velhos são solitários e socialmente isolados, mais privados do contato familiar do que os idosos heterossexuais não se confirmam porque na atualidade os homossexuais idosos tem bom nível de integração social.

Essa integração social é evidenciada nas classes sociais A, B e C, e ainda não é percebida entre os gays idosos mais pobres com baixos níveis de escolaridade, falta de acesso à informação e com renda mensal igual ou menor do que um salário mínimo. Há que se considerar também que o preconceito é mais acentuado entre os mais pobres, travestis e transexuais idosos.

As mudanças são lentas (observe que no início deste artigo eu me referi aos últimos trinta anos) e ainda vai demorar algumas décadas até que esse cenário seja plenamente favorável aos homossexuais idosos em todas as classes sociais.

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