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A integração social dos gays idosos

lgbt_SeniorsNa segunda parte do assunto sobre gay idoso vivendo sozinho, eu finalizo este tema falando sobre a integração social.

Os grandes centros urbanos concentram a maior parte da população LGBT do Brasil e nesses cenários são realizados estudos e pesquisas sobre a homossexualidade na terceira idade.

Mesmo com carência de estudos acadêmicos, os poucos estudos realizados nos últimos dez anos apontam que na maturidade e na velhice o homossexual masculino apresenta melhor qualidade de vida social do que os sujeitos heterossexuais na mesma faixa de idade.

Isso se explica por causa das mudanças sociais ocorridas nos últimos trinta anos. Parece besteira, mas até os movimentos das Paradas Gays espalhadas pelo Brasil contribuem para uma boa aceitação da orientação homossexual entre a população de idosos.

Semelhantemente, observam-se expressões de não identificação com movimentos políticos e sociais de afirmação de direitos dos gays e das lésbicas no Brasil. Os gays idosos expressam críticas à parada gay, fato que talvez explique por que esses movimentos atingiram maior expressividade social somente há pouco tempo, influenciando fortemente os gays mais jovens.

gays_idosos_couples

O gay idoso da atualidade era jovem nos anos 60 e 70, quando surgiram os primeiros movimentos civis de luta contra a discriminação e de defesa dos direitos das pessoas LGBT, portanto, está em sintonia com tudo o que aconteceu no mundo e quer fazer parte das mudanças. Dessa forma, ainda que tenha vivenciado experiências de discriminação em sua vida, sinaliza uma boa capacidade de enfrentamento de tais situações na maturidade e na velhice.

Outro paradoxo diz respeito ao isolamento social e a solidão. Na velhice a grande maioria dos gays é solteira e não tem filhos, o que pressupõe solidão, mas não é isso o que acontece porque justamente por serem sozinhos estão dando ênfase nos contatos sociais, seja em grupos específicos ou num cenário mais abrangente, tais como: relacionamentos estáveis, família, trabalho, grupos da terceira idade, vizinhos e amigos.

Os gays idosos que apresentam transtornos mentais estão buscando médicos, psicólogos e psicoterapias. Os transtornos são decorrentes de sofrimentos psicológicos, pois os gays que apresentam dificuldades em revelar-se socialmente observam outros gays saindo do armário e percebem que de algum modo, isso gera bem-estar psicossocial.

Em janeiro eu enviei e-mail para um grupo de idosos perguntando se eles tinham orgulho da orientação homossexual. Eis algumas respostas:

“Tenho orgulho, porque foi difícil me aceitar, teve um caminho longo até aqui, então como poderia não ter orgulho? Eu consegui as coisas mesmo sendo gay. É até um orgulho bobo, mas eu tenho orgulho.”

“Não tenho orgulho não. É como eu sou.”

“Sim, tenho orgulho, mas não vou numa passeata ou parada gay. Aquilo é como uma festa, não combina comigo.”

“Eu tenho orgulho porque não foi fácil, quando me vi sozinho tive que enfrentar a coisa de frente.”

“Mesmo vivendo no armário, eu tenho orgulho de ser gay e não preciso dizer isso a ninguém.”

gays_idosos_coupleOs gays na terceira idade revelam boa frequência de convívio familiar e de convívio com pessoas da mesma faixa etária, para amizades e relacionamentos, pois aprenderam às duras penas como lidar com essa situação. De fato, as percepções de que os homossexuais mais velhos são solitários e socialmente isolados, mais privados do contato familiar do que os idosos heterossexuais não se confirmam porque na atualidade os homossexuais idosos tem bom nível de integração social.

Essa integração social é evidenciada nas classes sociais A, B e C, e ainda não é percebida entre os gays idosos mais pobres com baixos níveis de escolaridade, falta de acesso à informação e com renda mensal igual ou menor do que um salário mínimo. Há que se considerar também que o preconceito é mais acentuado entre os mais pobres, travestis e transexuais idosos.

As mudanças são lentas (observe que no início deste artigo eu me referi aos últimos trinta anos) e ainda vai demorar algumas décadas até que esse cenário seja plenamente favorável aos homossexuais idosos em todas as classes sociais.

Um gay idoso vivendo sozinho

Atualmente é comum encontrar gay idoso caminhando, fazendo compras e vivendo o seu cotidiano sozinho. Isso é consequência do mundo moderno onde a individualidade é o comportamento padrão.

A velhice em si transforma o cenário das nossas vidas. Além da individualidade, o preconceito contra os idosos é outro fator comum na sociedade brasileira.

Foi o que aconteceu com o Benedito, ou Bene. Ele é um gay que chegou aos sessenta e cinco anos com muita saúde e disposição, além de uma vida sexual muito ativa.

No início tudo era lindo – viagens, festas e churrascos e muitos companheiros para sexo eventual. É bom esclarecer que o Bene nunca manteve relacionamento fixo por mais de um mês. Até apareceu um rapaz de uns trinta anos que queria algo sério, mas ele não quis ficar amarrado e largou o bofe.

blog_dicas_idoso_praiaEnquanto ele esteve no mercado de trabalho a sua vida não apresentava lacunas, bastou se aposentar para perceber as mudanças. Desde o afastamento dos poucos familiares até aqueles que ele julgava serem amigos – Num domingo de sol, estendido numa toalha de praia, ele olhou ao seu redor e se viu completamente “alone”.

Naquele fim de tarde, num quiosque à beira mar decidiu mudar a sua vida e tentar se adaptar ao novo cenário.

Na semana passada eu conversei com ele e acho que finalmente encontrou o seu caminho. Hoje ele sabe que os idosos, independente de preferencias sexuais vivem sozinhos e à medida que os anos avançam a situação tende a piorar.

O Bene me falou que existem dois tipos de gays idosos: Os acomodados e os inconformados. Os acomodados são aqueles que se deixam levar pelo ostracismo e o esquecimento, já os inconformados são aqueles que não aceitam o isolamento e vão à luta.

Os gays idosos mais ativos não enferrujam dentro de casa e aqueles que têm boas condições de saúde, fazem caminhadas matinais diárias, saem para compras em supermercados e ainda arrumam tempo para cuidar da casa e curtir o lazer em dias de sol como esses do verão brasileiro.

Bene aprendeu rápido e hoje diz: Não importa se está sozinho, o importante é não sentir-se sozinho. Infelizmente não é o que acontece com a maioria dos gays idosos.

Nessa fase da vida é difícil socializar, mas cada um tem que encontrar o seu caminho. Existem tantas coisas para fazer durante um dia que não dá para imaginar que os gays da terceira idade não possam preencher a sua agenda com coisas uteis e simples.

Eu perguntei ao Bene se um gay idoso de 80 anos faz sexo? Ele respondeu: É raro, mas fazem, conheci dois casos, um velhinho que transa toda semana numa sauna em Campinas/SP e um na minha cidade natal, Salvador, onde um velhinho gay pagou um pescador para transar com ele e morreu durante a transa…O velhinho é claro!

Para o Bene ser um gay idoso não é um bicho de sete cabeças – Viver sozinho muitas vezes não é uma escolha, é uma condição que não faz mal a ninguém. É necessário saber administrar e cuidar da mente e do corpo e manter boa saúde, para de preferencia envelhecer sem as neuras comuns terceira idade.

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