Teatro: Um brinde à solidão a dois

O diretor teatral Sebah Vieira volta aos palcos de São Paulo com um texto de Miguel Adamanto sobre o sentir-se sozinho. “Um Brinde à Solidão a Dois” retrata o relacionamento entre homossexuais e a solidão em um contexto geral.

“Um Brinde à Solidão a Dois” - 15 de março a 28 de junho
Quinta-feira, às 21 horas
Teatro do Ator: Praça Roosevelt, 172 – Consolação
Tel.: (11) 3257-3207

Fantasmas do passado

O luto é uma resposta natural a qualquer ser humano na vida. Superar o sofrimento da morte de um companheiro de longos anos não é tarefa fácil.

Existem relações entre parceiros que duram muitos anos. Na linha do tempo da relação, o tempo passa, os parceiros envelhecem e a assimilação da convivência é um processo imperceptível. Aí uma fatalidade muda os rumos da vida do parceiro remanescente.

O gay na terceira idade tem muitas dificuldades para superar os traumas da perda; muitos não conseguem recuperar os principais pontos de equilíbrio da vida e do cotidiano.

Neste cenário de perdas, a solidão é um fator sempre presente. Além do isolamento social existe a dificuldade de encarar a nova vida e a possibilidade de encontrar novos parceiros.

Eu conheço um gay idoso que perdeu o companheiro depois de décadas de relacionamento. Hoje ele tem 64 anos e depois de dois anos desde a  viuvez não consegue viver livre dos fantasmas do passado.

No apartamento onde ele mora, a decoração ainda é a mesma dos tempos de outrora. Móveis, livros, fotos e até roupas ainda estão presentes. Ele não conseguiu se desvencilhar das coisas materiais do parceiro. Nas conversas com os poucos amigos as memórias do passado e dos dias felizes estão sempre presentes.

Nesse redemoinho de lembranças e cercado por objetos, ele criou um mundo à parte. Ele vive o presente preso ao passado e assim não consegue ir adiante, não acredita em mais nada e tem a certeza que não encontrará um substituto à altura do parceiro falecido. Isso é óbvio, porque ninguém substitui ninguém.

Com muitas dificuldades ele vai vivendo e tenta se distrair, também, se acha suficientemente maduro para não procurar ajuda de psicólogos.

Numa conversa informal eu lhe disse que isso é decorrente do materialismo enraizado na sua vida. A mudança comportamental depende da mudança de si mesmo. É necessário rever todos os seus valores e tentar equilibrar a balança do material X espiritual. Tem pessoas que não sabem lidar com isso.

No universo gay as relações estáveis são minoria e situações como essa são frequentes. Pesa ainda o fator do envelhecimento, o vinculo e a dependência afetiva e os valores que cada um cultivou durante a vida.

Não existe formula mágica que livre os gays dessa situação. A única certeza na vida de qualquer ser humano é a morte.

Nota: A exato, um ano, eu publiquei um post com o título Mentes abertas, corações abertos e nele eu fiz referências ao filme A Single Man (direito de amar) que retrata a situação da perda do parceiro e os fantasmas do passado.

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